Livro conta a trajetória da atriz e cantora Zezé Motta

“Mesmo quem está na mídia, como jogadores de futebol, personalidades e artistas negros, ainda é discriminado”, confessa a atriz e cantora Zezé Motta a certa altura da biografia Um Canto de Luta e Resistência, escrita pelo ator e dramaturgo Cacau Hygino. O assunto, geralmente negado por figuras do porte de Zezé, vem à tona de modo cabal num livro de leitura ligeira, mas que tem o mérito de não ocultar os temas mais dolorosos. Embora festejada por atuações como o papel protagonista de Xica da Silva (1976), Zezé, hoje com 73 anos, constrange a hipocrisia da sociedade brasileira pela pilha de personagens subalternos, escravizados e/ou meramente sexualizados que viveu, tanto na tevê como no cinema e no teatro. A luta crescente por igualdade racial muitas vezes fica restrita aos bastidores, também iluminados pelo livro.

Integrante do coro da montagem original de Roda Viva (hoje novamente em cartaz no Teatro Oficina), no grupo que foi espancado pelo Comando de Caça aos Comunistas em 1968, Zezé queria desde cedo ser cantora, e revela aqui agruras também na seara musical. A plural estreia em disco solo aconteceu em 1978, com canções inéditas feitas para ela por Rita Lee (Muito Prazer, Zezé), Luiz Melodia (Dores de Amores), Moraes Moreira (Crioula), Caetano Veloso (Pecado Original), e Leci Brandão (Dengue). Mesmo assim não vendeu nas lojas, e a gravadora Warner a pressionou a cumprir suposto destino negro e se tornar cantora de sambas. Ela não aceitou. Tratava-se, segundo revela o livro, da musa inspiradora da canção feminista Tigresa (1977), de Caetano, que quase todo mundo pensa ter sido feita para Sonia Braga.

 

 

 

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