Foto: Divulgação

A obra provocadora do linguista Marcos Bagno completa 20 anos como um fenômeno editorial, com mais de 300 mil exemplares vendidos

Ao lançar “Objeto Língua”, Marcos Bagno revalida fundamentos lançados há duas décadas com “Preconceito Linguístico”, um fenômeno editorial que vendeu, em 20 anos, mais de 300 mil exemplares. O livro defende que os preconceitos em relação à fala e à escrita acobertam séries mais extensas e graves de discriminações sociais. O linguista segue nessa missão nos textos inéditos e revisitados de “Objeto Língua”, em luta contínua por uma educação democrática e constituidora de cidadania. Ele está, hoje, na oposição.

Por que “Preconceito Linguístico” vendeu 300 mil exemplares? Qual era seu objetivo quando escreveu?

Marcos Bagno: Pois é, boa pergunta. Tinha aí alguma lacuna nos estudos de linguagem que de repente eu preenchi sem querer. Peguei como foco o fato de que as pessoas são discriminadas pela linguagem, e fui tentando mostrar quais eram os mecanismos sociais e culturais que levavam a isso. A maioria dos nossos estudantes de Letras vêm das camadas desfavorecidas. É gente que tem pai e mãe analfabetos, mora na periferia. Eles se sentiram muito próximos daquilo. A foto da primeira edição era da minha sogra e do meu sogro, 100% analfabetos, negros, do interior de Pernambuco. As pessoas se identificaram muito com aquilo, “minha avó também”. Hoje está na 58ª edição, é leitura praticamente obrigatória nos cursos de Letras, Comunicação, Serviço Social… Para mim até hoje é um espanto.

O tom polêmico ajudou?

MB: Sim. O primeiro crítico desse livro foi ninguém menos que o senhor Olavo de Carvalho. Ele escrevia na revista Bravo!, ainda morava no Brasil. O livro é um manifesto político antes de tudo. É o meu manifesto comunista (ri). É engajado, tem posições políticas assumidas claramente. Existe todo um discurso social sobre língua, a discriminação das pessoas pela fala. O caso do Lula é um exemplo, nas primeiras tentativas dele de se eleger um dos primeiros ataques era esse, “Como a gente vai eleger um cara que não sabe falar direito?”

O que lhe despertou a preocupação com o preconceito linguístico?

MB: Tem a ver com a minha formação política mesmo. Meu pai foi militante comunista. Comecei a ler muito cedo teoria sociológica marxista, e fui percebendo isso. Me deu vontade de falar porque era uma questão importante. Já existia o combate aos preconceitos, ao racismo, à homofobia, e eu pensava: por quê ninguém fala do preconceito por meio da linguagem? A própria esquerda não se dá conta disso. Muitas vezes as outras formas de discriminação têm um fundamento na linguagem. A língua é usada como disfarce para a discriminação social. Quando não é politicamente correto discriminar a pessoa porque é mulher, pobre, negro, nordestino, falam que é analfabeto, que não pode ocupar postos porque não sabe falar direito.

“Objeto Língua”. De Marcos Bagno. Parábola, 2019. R$ 49.

 

“Preconceito Linguístico”. De Marcos Bagno. Parábola, 1999. R$ 33.

 

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