Foto: Antonio Scarpinetti/Unicamp

Estudioso das transformações do trabalho no Brasil e no mundo, o sociólogo Ricardo Antunes, da Unicamp, falou conosco sobre o cenário brasileiro desde a aprovação da reforma trabalhista de 2017.  A flexibilização das leis cria uma série de mudanças, como férias parceladas, demissão em comum acordo e até diminuição das horas de almoço dentre outros.

Confira também o trabalho do fotógrafo Assis Horta. O mineiro registrou centenas de pessoas que buscavam oficializar suas carteiras de trabalho após a Consolidação das Leis do Trabalho, promulgada por Getúlio Vargas em 1943. De lá pra cá, muita coisa mudou e a classe trabalhadora perdeu parte dessa cobertura que a protegia. “Estamos em um processo de devastação das leis que protegem o trabalhador”, resume Ricardo Antunes.

Como o senhor avalia o mercado de trabalho no Brasil?

Ricardo Antunes: É o pior momento desde a ditadura. Estamos em um processo de devastação das legislações sociais do trabalho, iniciada com a deposição de Dilma Rousseff. A primeira medida foi o decreto que liberou a terceirização, uma quebra importante num dos fundamentos da CLT. A segunda e mais grave, por ser mais abrangente, é a contrarreforma trabalhista de 2017, que autorizou o empregado a negociar com o patrão acima da lei. Ela estabeleceu a flexibilidade de várias dimensões do trabalho, como a jornada e o salário, por exemplo. Essa reforma teve um claro movimento antissindical, que depois se consolidou com a chegada de Bolsonaro ao poder. Essa proposta tinha uma sentido de tirar a negociação predominantemente do âmbito sindical e trazer para o âmbito individual entre trabalhadores e a empresa.

O que é ser trabalhador no contexto atual?

Ricardo Antunes: O mundo do trabalho hoje é pautado por uma legislação social predatória. A empresa do nosso tempo é uma empresa enxuta. O trabalho vivo deve ser substituído pelo trabalho morto, de maquinário digital. As plataformas digitais, que são cooperações, têm um monte de trabalhadores à disposição. Nem a plataforma é obrigada a te chamar para trabalhar nem o trabalhador é obrigado a aceitar.
O resultado é que você tem o mundo da intermitência e isso é uma praga mundial. A classe trabalhadora hoje compreende um conjunto muito heterogêneo de homens e mulheres que vendem sua força de trabalho em sua grande maioria já mediada por um aparelho digital, e esta condição aliada a uma empresa flexível altamente digitalizada faz com que o trabalhador esteja disponível para o trabalho. Essa é a classe trabalhadora dominante do mundo de escravidão digital.

Confira cinco livros de Ricardo Antunes:

“O privilégio da servidão”. Boitempo. R$ 64.

“Adeus ao Trabalho. Cortez”. R$ 39,42.

“Infoproletários”. Boitempo. R$ 49.

“O continente do labor”. Boitempo. R$ 43.

“Os sentidos do trabalho”. Boitempo. R$ 54.

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