Enquanto esperam pelos novos kits, nossos associados seguem com a leitura de “As vidas de José Bonifácio” (Sextante) da historiadora Mary Del Priore. O livro foi indicação do curador da Edição 15, o apresentador e jornalista Eduardo Bueno que quis compartilhar com o clube sua paixão por História do Brasil.

Sobre o livro

Durante o período pré-independência, no século XIX, o Brasil foi palco de mudanças rápidas e tramitações políticas intensas. Esse cenário contou com inúmeros agentes que tentavam responder aos desafios de seu tempo com todas as questões que uma colônia escravocrata no Novo Mundo tinha. Entre esses nomes estava o de José Bonifácio, um homem nascido em Santos, em 1763, numa família pequeno burguesa de alguns escravos e terras e que passaria muito anos na Europa estudando até voltar à terra natal.

Depois de quase 30 anos, Bonifácio retorna e traz consigo a expertise que o colocaria ao lado da rainha Leopoldina. Foi o braço direito dela na Independência da República e, por isso, ficou conhecido como Patrono da Independência do Brasil levando elogios e mistificações nos livros de história. “Com o tempo foram transformando Bonifácio em uma estátua, e mistificá-lo não é o caminho”, comenta Del Priore em entrevista para a Folha de S. Paulo. Poucos historiadores se prestaram a dizer o que se passou na vida de Bonifácio sem pintá-lo como gênio, palavra notória naqueles tempos Românticos. Era, sobretudo, um homem de seu tempo, com desejos, problemas e incoerências que Mary Del Priore oculta nesta biografia.

Sobre a autora

Assim como na vida de Bonifácio, Mary Del Priore também esteve na Europa aprofundando seus estudos para voltar ao Brasil e pensar sobre o país. E a autora fez isso de várias formas: nas salas de aula, nas colunas de jornais e, principalmente, em livros.

São mais de 50 títulos publicados, dentre eles a tetralogia “Histórias da Gente Brasileira” (LeYa), “Histórias Íntimas. Sexualidade e Erotismo na História do Brasil” (Planeta), “História do Amor no Brasil” (Contexto), “História das mulheres no Brasil” (Contexto) e outros.

Formada em História pela PUC-SP e com doutorado na USP, Del Priore completou sua carreira na École des Hautes Études en Sciences Sociales na França. Depois da temporada numa das maiores academias de estudos sociais do mundo, voltou e deu aulas na UFRJ, USP e na Universidade Salgado de Oliveira onde está atualmente.

Foto: Divulgação

Há quem acredite que os séculos passados ficaram no passado, que é preciso apenas olhar para frente. A carreira de Del Priore prova o contrário. Somente quando olhado com rigor é que o passado pode fazer um presente e, consequentemente, um futuro mais acessível. Sem isso, nossa trajetória fica nebulosa e acabamos nos agarrando aos grandes fatos e às narrativas idealizadas do que eles foram.

Como historiadora, ela resgata experiências sociais passadas por meio de uma infinidade de fontes históricas e cria livros como “Documentos Históricos do Brasil” (Panda Books), um trabalho com mais de 100 fotografias e documentos raros da nossa história. Ou “História dos crimes e da violência no Brasil” (editora Unesp) no qual traça um panorama da violência histórica, praticamente estrutural do país.

“Todo e qualquer processo de colonização é construído por meio da violência. Extinção de povos autóctones, escravidão de índios e africanos e destruição de culturas que fizeram parte da nossa e de outras histórias. Hoje, a violência é produto de um individualismo e consequência de uma sociedade hipermoderna, que fragiliza os laços sociais e se caracteriza por atentar contra a integridade dos cidadãos sob diferentes formas.” | Entrevista concedida ao jornal Estado de S. Paulo.

A violência, assim como a corrupção, são grandes temas da história do Brasil. Temas que foram explorados por diversos autores, mas que, com Del Priore, recebem um tratamento atencioso ao que ficou de lado nas narrativas. Pesquisadora nata, ela vai atrás daquilo que não foi totalmente analisado, de documentos, vidas e casos que parecem conter as forças e sentidos dominantes das épocas.

Em “A Carne e o Sangue” (Rocco), Mary Del Priore analisa a instituição do casamento no século XIX. As vidas conjugais da Imperatriz D. Leopoldina, de D. Pedro I e de Domitila, a Marquesa de Santos, se tornam refletores das contradições e estruturas do século. “Histórias e conversas de mulher” (Planeta) também segue nessa linha do resgate do que, até então, não se comenta tanto: a história de várias brasileiras do período colonial aos dias de hoje. Tudo isso com um olhar que concilia informação e fluidez. Seus livros são marcados por uma escrita literária que encadeia os acontecimentos de forma parecida a um romance de época.

“Desejo levar o leitor a compreender o “como” aconteceu. Não o “por que” aconteceu. Quero contar como viviam, se alimentavam, trabalhavam, criavam, inventavam, burlavam, amavam e traíam nossos antepassados.” | Entrevista para o Portal G1.

Esse olhar revisionista rendeu à autora diversos prêmios. Já ganhou o Jabuti, o União Brasileira de Escritores, o Casa Grande e Senzala, o Personalidade do Ano, o Fundação Biblioteca Nacional e outros. Mary Del Priore continua explorando histórias que ainda não foram colocadas em foco e nos fazendo ver um passado mais detalhado para compreender nosso presente.

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