A Edição 22 da Panaceia trouxe uma combinação singular de inspiração e bravura, impressas pela presença da curadora da vez: Djamila Ribeiro. A filósofa, acadêmica e ativista feminista e antirracista, tornou-se uma presença marcante nas redes sociais, com dezenas de milhares de seguidores no Twitter e no Instagram. Por sua forte atuação no que tange o feminismo e as relações raciais e de gênero, enxerga na internet uma ferramenta importante para construir espaços a serem ocupados por mulheres negras, comumente inviabilizadas pela mídia tradicional.

Influenciada por seu pai, que também foi militante do movimento negro e um dos fundadores do Partido Comunista em Santos, cidade onde ela nasceu e cresceu, Djamila já era uma leitora voraz aos seis anos de idade. Aos 18, envolveu-se com a Casa da Cultura da Mulher Negra, organização não governamental feminista e antirracista da baixada, e passou a estudar temas relacionados a gênero e raça. Aos 35, foi nomeada secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo, cargo que ocupou entre maio e dezembro de 2016, durante a gestão do prefeito Fernando Haddad. Em 2019, foi eleita uma das 100 mulheres inspiradoras e influentes de todo o mundo pela BBC.

Djamila escolheu dois livros para os assinantes da Panaceia, obras que considera essenciais para se pensar a complexidade das relações raciais, de gênero e de classe no Brasil: “Teoria feminista: da margem ao centro”, da teórica feminista bell hooks, e “O que é empoderamento?”, da urbanista Joice Berth. Confira:

 

Se por um lado bell hooks fala da sua própria experiência pessoal como uma mulher que nasceu no sul dos Estados Unidos, em uma comunidade segregada, e conta como é viver à margem da sociedade e a importância do olhar de quem está à margem para que se possa compreender a completude da situação social. Por outro, Joice Berth vem restituir o significado do empoderamento a partir de autoras da margem, indianas e latinas, mostrando que ele é uma ferramenta coletiva de emancipação. Conheça mais sobre elas a seguir.

SOBRE A AUTORA

Educadora, feminista e ativista social, bell hooks nasceu em 1952, em Hopkinsville, Kentucky, no sul dos Estados Unidos, batizada como Glória Jean Watkins. Adotou o pseudônimo bell hooks em homenagem a sua bisavó. A escolha pela grafia em letras minúsculas é uma postura despersonalizante, que busca dar mais importância à substância de seu pensamento e ao conteúdo de seus livros do que à sua figura.

Durante sua infância, ainda havia nos Estados Unidos comunidades que praticavam a segregação racial e bell hooks estudou em escolas públicas exclusivas para crianças negras. Vinda de uma família numerosa, com cinco irmãs e um irmão, desenvolveu desde cedo uma grande capacidade de observação e de reflexão sobre os sistemas sociais de opressão e dominação que a rodeavam. Seus primeiros estudos sobre raça, classe e gênero partem de experiências próprias, em sua vida pessoal, vizinhança e na escola.

Aos 19 anos, durante sua licenciatura, começou a escrever seu primeiro livro, “Não serei eu mulher?”, que seria publicado em 1981. Trata-se de uma análise do impacto do sexismo sobre as mulheres negras durante a escravatura, do envolvimento das mulheres negras nos movimentos feministas e do racismo entre feministas. Esse é um dos temas caros à autora: a representação negra nos movimentos feministas e como muitas vezes o feminismo reproduz a macroestrutura racista, dificultando a luta pela real equidade dos direitos sociais.

bell hooks formou-se em Literatura Inglesa na Universidade de Stanford, fez mestrado na Universidade de Wisconsin e doutorado na Universidade da Califórnia. Publicou mais de trinta livros, de teoria e crítica cultural a poesia e literatura infantil.

Acadêmica excepcional, foi professora em diversas instituições de ensino dos Estados Unidos.
Sua obra escrita apresenta sempre um viés pedagógico. Dentre suas influências, a autora nomeia Martin Luther King, Malcom X e Eric Fromm, mas também o educador Paulo Freire.
Para hooks, a educação tem papel fundamental e revolucionário na construção de um pensamento social feminista, principalmente entre as mulheres negras, historicamente excluídas da academia.

Apenas recentemente publicada no Brasil, sua obra vem atraindo crescente interesse por aqui. O debate de raça, gênero e classe que a autora promove fornece elementos fundamentais para a compreensão do feminismo e da subjetividade das pessoas negras, questões latentes para a articulação da urgente transformação social da qual carecemos.

SOBRE O LIVRO EXTRA

Joice Berth, feminista negra, arquiteta e urbanista, enfrentou uma juventude de conflitos. Isolada e em situação de minoria nas escolas particulares e, mais tarde, na escola pública, desconectada dos estereótipos impostos às pessoas negras, aprendeu, ainda adolescente, que a razão de seu descompasso era a dura realidade à qual todas as mulheres negras estão sujeitas: o racismo e o sexismo.

A identificação na adolescência com as letras de rap a inspirou a prosseguir nos estudos, a apropriar-se de sua cor e a buscar um espaço de protagonismo e de responsabilidade histórica e social como mulher negra. Assim iniciou sua trajetória pessoal de empoderamento. Formada pela Universidade Nove de Julho e pós-graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG, é pesquisadora sobre o recorte de gênero e raça no direito à cidade.

Crítica à forma homogeneizante como os movimentos feministas brancos lidam com as reivindicações sociais de minorias, Joice encontrou seu espaço de reflexão no movimento feminista negro, que, segundo ela, trabalha as questões sexistas na interseccionalidade dos temas de gênero e raça, respeitando a autonomia de seus diversos segmentos.

Joice Berth desenvolve seu raciocínio em diálogo com pensadores e pensadoras como Paulo Freire, Michel Foucault, Hannah Arendt, Vivian Baquero, Patrícia Hill Collins, bell hooks, Lélia Gonzalez, Barbara Bryant Solomon, Angela Davis e Sueli Carneiro.

Em seu livro, “O que é empoderamento?”, a autora busca restaurar o significado do termo. Segundo ela, sua substância vem sendo esvaziada culturalmente diante de uma perspectiva individualista. Frente a isso, Joice produz uma discussão que vai além da afirmação da importância do processo de empoderamento, para refletir a necessária re-ressignificação do conceito.

O empoderamento é um instrumento amplo de luta e de reestruturação da hierarquia social. Acima de tudo, é um processo coletivo contínuo, ao mesmo tempo que individual, prático e teórico. Joice critica o uso simplista e personalista do termo. Celebridades, por exemplo, são cultuadas e tidas como empoderadas ao assumirem uma posição de poder. Mas não inverteram a ordem da cruel hierarquia social responsável pela manutenção da estrutura discriminatória, muito pelo contrário: reafirmam-na. Xampus e roupas, defende a autora, não são capazes de empoderar ninguém. As pessoas devem empoderar-se a si mesmas, mas numa ação coletiva de reordenamento do poder.

Atitudes de empoderamento precisam, pois, trazer consigo a consciência das dimensões do poder e buscar reconstruí-lo de modo a inverter os padrões de comportamento, para que não haja mais concentração de privilégios de nenhum tipo. Com tal proposta, Joice Berth, em “O que é empoderamento?”, nos oferece uma discussão radical e sofisticada, antirracista e antissexista que advoga uma urgente e necessária inversão no jogo do poder.

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