No início do século XX, São Paulo era o principal destino da mão-de-obra europeia que veio substituir o trabalho escravo abolido em 1888. Italianos, portugueses e espanhóis ocupavam boa parte do chão das fábricas da nascente indústria brasileira.

Os imigrantes trouxeram consigo as ideias que transbordavam na Europa desde a Revolução Francesa de 1789 – liberalismo, socialismo, comunismo e anarquismo entre elas. O intercâmbio cultural fez brotar entre os operários os conceitos de luta de classe, sindicalismo e direitos trabalhistas.

À época, como na maior parte do mundo, as condições de trabalho em São Paulo eram massacrantes. As jornadas variavam de 11 a 16 horas por dia. Mulheres e crianças, com salários menores, formavam o maior contingente de trabalhadores. Protestos por melhores salários e maior salubridade eram tratados como “caso de polícia” e reprimidos de forma violenta.

Até então, as greves registradas no Brasil haviam sido localizadas, mas tudo mudou em julho de 1917. Paralisações parciais por aumento de salários nos meses de maio e junho receberam apoio de parte da imprensa, sobretudo dos jornais anarquistas.

Entre os mais entusiasmados defensores das greves e do pensamento anarquista figurava Edgard Leuenroth, tipógrafo e jornalista brasileiro que fundou os jornais “Terra Livre”, “A Lanterna” e “A Plebe”. As ideias propagadas por Leuenroth inspiraram a criação das Ligas Operárias, conselhos de trabalhadores em defesa de interesses coletivos de classe que se espalharam pela cidade.

Os conflitos aumentavam dia após dia. O estopim ocorreu, no entanto, durante um protesto em 9 de julho na porta da Fábrica Mariângela. A brutal repressão da polícia terminou com a morte do sapateiro espanhol José Martinez.

O enterro de Martinez no dia seguinte provocou uma adesão progressiva dos trabalhadores à greve, iniciada pelos operários da tecelagem Cotonifício Crespi. O movimento tomou a capital paulista, se espalhou pelo interior e alcançou os estados do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Os grevistas montaram uma rede de solidariedade para resistir aos dias parados sem salário.

No dia 16, um acordo entre os grevistas, as empresas e o governo atendeu em parte as reivindicações: aumento de 20% nos salários, liberdade de associação sindical e a manutenção dos empregos dos grevistas.

O arranjo duraria pouco tempo. Superada a greve, as empresas sentiram-se à vontade para descumprir boa parte dos acordos. A resistência operária foi demolida com a prisão e a expulsão arbitrária do país dos principais líderes anarquistas.

Os trabalhadores precisariam esperar quase quatro décadas por uma legislação trabalhista ampla e moderna. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) só seria sancionada em 1943 por Getúlio Vargas.

Quer saber mais sobre as greves anarquistas de 1917 e o contexto político e econômico do período? A Panaceia indica estes livros:

“A Greve Geral de 1917: Perspectivas Anarquistas”. Vários autores. Biblioteca Terra Livre. R$ 35.

“A Greve de 1917: Os trabalhadores entram em cena”. José Luiz del Roio. Editora Alameda. R$ 34,90.

“A Locomotiva: São Paulo na federação brasileira 1889-1937”. Joseph Love. Paz Terra. R$ 220.

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