Considerado hoje um dos mais notáveis pensadores brasileiros, referência como teórico e pesquisador marxista, Michael Löwy é diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique, da França, onde vive desde os anos 1960. 

Na juventude, ajudou a fundar a Liga Socialista Independente, movimento inspirado em uma organização homônima dos Estados Unidos. Ao seu lado estavam Eder e Emir Sader, a quem se referia como os “astros da esquerda brasileira”. 

Mais tarde, participou da fundação da Polop (Organização Revolucionária Marxista Política Operária). Dessa vez, seus camaradas eram Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos, Erich Sachs e outros intelectuais inspirados pela revolução cubana, que havia triunfado em 1959. A Polop se tornou uma força política de grande impacto na resistência contra a ditadura militar no Brasil e deu origem a várias outras organizações de orientação radical de esquerda. 

Em Paris, na França, país que o acolheu e onde se radicou quando o Brasil enfrentava o período político mais truculento de sua história recente, o da ditadura militar, o jovem sociólogo concluiu o doutorado sobre a revolução comunista na obra do jovem Karl Marx, sob a orientação do filósofo Lucien Goldmann. 

A contribuição de Löwy é extensa. Em sua trajetória, aprofundou pesquisas sobre Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Georg Lukács, Leon Trótski, Walter Benjamin e no próprio Lucien Goldmann. Em sua obra, com traduções em 22 países, destacam-se Redenção e utopia (1989); As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchausen (1994); Marxismo e Teologia da Libertação (1991); Revolta e melancolia (1995); O marxismo na América Latina (1999); A teoria da revolução no jovem Marx (2002) e Afinidades revolucionárias: Nossas estrelas vermelhas e negras (2016). 

Löwy, contudo, nunca foi um intelectual encastelado dentro dos muros da universidade. Pelo contrário, uma de suas marcas é a militância política, com a disposição de contribuir ativamente para a construção de um mundo socialmente mais justo 

Além de ser pensador das correntes marxistas libertárias, desde muito cedo Löwy era entusiasta do movimento surrealista internacional, antiformalista e dedicado à libertação do inconsciente. Marxismo e surrealismo, no seu caso, não só não podem ser dissociados, como juntos são, para ele, ferramentas anticapitalistas. Ligado ao Le groupe de Paris du mouvement surréaliste, desenvolveu uma série de publicações e exposições surrealistas que incluíam, além de ensaios, colagens, desenhos automáticos e gouaches. Parte desses textos foi publicada no Brasil, mas muito ainda permanece desconhecido por aqui. 

A partir dos anos 2000, Löwy passou a se destacar por seus estudos sobre a perspectiva ecossocialista, que incorpora as questões ambientais ao projeto político do socialismo. Hoje com 81 anos, ainda é uma das vozes mais ativas sobre a urgência do debate ecológico pelo viés marxista. Mesmo vivendo na França, muito próximo da produção intelectual européia, mantém amplo intercâmbio com organizações políticas brasileiras como o MST e as Ligas Camponesas, além do PSOL e do PT. 

Marxista heterodoxo, tem-se dedicado também a compreender e a propor soluções para as cada vez mais complexas relações de trabalho. Ele acredita que a classe trabalhadora – tal qual a descreveu Marx – sofreu inúmeras mutações ao longo do processo de desenvolvimento do capitalismo e, por isso, hoje o debate em torno das questões trabalhistas deve levar em conta a subjetividade do relacionamento entre trabalhadores e empresas, mediado por análises de conjuntura econômica e social. 

Acadêmico e  militante, Löwy vem se dedicando a construir pontes entre o Brasil e os países hispânicos da América Latina, lançando luz sobre a questão da implementação do “marxismo prático” e as contradições internas desse processo na região. Para tanto, resgatou com mestria a obra de José Carlos Mariátegui, maior marxista latino-americano do século passado, e ensaios de inúmeros intelectuais e organizações políticas do continente produzidos ao longo dos últimos cem anos. Parte desse trabalho está reunido no livro O marxismo na América Latina

Intelectual marxista e revolucionário, ecossocialista, surrealista e movido por “profundos sentimentos de amor” (Che Guevara). Assim é Michael Löwy, curador do kit que celebra os dois anos da Panaceia. 

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