Nossa Edição 17, com curadoria da cartunista Laerte Coutinho, levou aos associados o livro “Devassos no Paraíso” (Editora Objetiva), escrito pelo dramaturgo, literato, cineasta e militante João Silvério Trevisan. É isso mesmo, não tem exagero. Trevisan já fez de tudo e mais um pouco, por isso vale jogar um holofote sobre sua história. 

Irreverência de cima a baixo

João Silvério Trevisan nasceu em 1944 na cidade de Ribeirão Bonito, interior de São Paulo, cidade pacata que à época não sabia, mas seria o berço de um dos principais militantes da causa LGBT e agitadores do movimento. Um homem que é irreverência de cima a baixo e cuja obra não poderia ser menos potente.

Mas tudo tem um começo, e o de Trevisan foi quando ele largou o seminário e assumiu a homossexualidade. Nos dez anos que esteve se preparando para ser padre, teve contato com a filosofia e a inclinação para fazer perguntas aflorou. 

Decide então sair do país, dar uma volta pela América Latina e, em seguida, ir para a universidade de Berkeley na Califórnia, berço da vanguarda da contra-cultura. 

Afinal, é o final da década de 60, o mundo tenta equilibrar vários movimentos sociais e culturais pela democracia, e isso às vezes pode vir com violência por parte de alguns. 

No caso do Brasil, a vida de Trevisan fica mais emocionante quando sabemos que ele fez tudo isso em meio ao AI-5, decreto que engrossava a censura que o governo militar vinha aplicando desde o golpe, em 1964.

Nos EUA, Trevisan tem contato com o movimento gay organizado, com a new left e com o anarquismo – ele chegou até a trabalhar num restaurante anarquista por um tempo. Depois vai para o México, descendo no mapa e preparando seu retorno ao país natal.

Mãos à obra

De volta ao Brasil em 1976, foi um dos editores-fundadores do irreverente mensário Lampião da Esquina, primeiro jornal voltado para a comunidade homossexual brasileira. 

Trevisan estava presente quando houve a primeira reunião na casa do pintor Darcy Penteado onde seria gestado o Lampião. Na ocasião também estavam o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet, o ativista João Antônio Mascarenhas, o antropólogo Peter Fry e outros.

O Lampião abriu as portas para uma militância mais forte e Trevisan tornou-se um importante ativista na área dos direitos humanos e um dos principais articuladores do movimento LGBT no país. Em 1978, fundou o grupo afirmativo “Somos”, primeiro Grupo de Afirmação Homossexual do Brasil.

Neste ponto, Trevisan já havia dirigido dois projetos audiovisuais: o curta-metragem “Contratação” (1969), o longa “Orgia ou o homem que deu cria” (1971); e seu primeiro livro de contos: “Testamento de Jônatas Deixado a David” (1976). 

A fortuna dessa história

Trevisan é autor de mais de uma dezena de livros, entre os quais está “Devassos no Paraíso”, um sucesso desde que foi lançado, em 1986. O livro estava esgotado, mas a nova edição chega em boa hora às livrarias e, especialmente, nas casas de nossos associados.

Na literatura, destacam-se os títulos “Pai, Pai” (2017), “Rei do Cheiro” (2009), “Ana em Veneza” (1994) e “O Livro do Avesso” (1992). Além disso, atuou como diretor da oficina literária do SESC até 2005 e assinou coluna mensal na revista G Magazine.

Num momento atual tão crítico como o que vivemos, com tantas ameaças legitimadas pelo próprio governo à vida da comunidade LGBT, aos povos indígenas, ao meio ambiente, à pesquisa científica, a leitura de “Devassos no Paraíso” se encaixa perfeitamente com o pensamento crítico que não pode morrer.

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