Uma lista de livros que interpretam as diversas crenças, com e sem devoção

Entender as religiões não é tarefa de fácil empreendimento dada a diversidade de crenças, de práticas, de laços culturais que as envolvem. Por outro lado, em geral, todos têm alguma noção do que seja “religião”. Ela pode ser popularmente definida como o universo de crenças que envolvem o transcendente, aquilo que está para além do palpável e do concretamente experimentável pelos cinco sentidos do corpo. Daí a ideia comum de “religião” estar voltada para crença em um ou mais seres divinos, superiores, denominados Deus ou deuses e deusas, em espíritos, seres sobrenaturais, na vida para além da morte.

São múltiplos e de extensa lista os livros que tratam de “religiões”. Desde os relacionados às próprias “religiões do livro” (Cristianismo, Islamismo e Judaísmo) e as obras que discorrem sobre eles, até os textos de caráter devocional e os romances, cujos temas centrais envolvem religiões. Neste espaço, oferecemos uma lista de 10 livros (sem ordem de importância ou preferência) que tratam das religiões sob os aspectos antropológico, histórico, social e político tanto no plano global como local.

O que é religião, por Rubem Alves

O autor, teólogo, psicanalista e educador Rubem Alves descreve as mudanças na história que chegaram a decretar o desaparecimento da religião com a “morte de Deus”, por conta do desenvolvimento do humanismo, da ciência e das máquinas. A obra reconhece, no entanto, que, ao contrário, as religiões permanecem, exibem vitalidade, novas configurações e sentidos. O texto descreve a importância do sagrado para o ser humano e apresenta a ousada afirmação de que o estudo das religiões é um espelho para que o ser humano se veja.

Uma História de Deus, por Karen Armstrong

A compreensão de um único ser divino tem alimentado as três grandes religiões monoteístas – Javé, no Judaísmo; Deus, com letra maiúscula, no Cristianismo; Alá, no Islamismo – desde milhares de anos. Esta noção tem uma história, pois passou por transformações em diversas épocas e situações. Karen Armstrong, estudiosa de literatura e das religiões, apresenta os diferentes significados do Deus monoteísta ao longo da história da humanidade. Esta variedade de significados, para a autora, é justamente a razão da sobrevivência da noção de Deus/Javé/Alá.

O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião, por Peter Berger

O olhar sociológico de um autor referencial nos estudos das religiões. Peter Berger não nega o valor de outras compreensões sobre o tema, como a teológica, mas ancora sua abordagem na sociologia empírica e vê as religiões como projeções humanas, baseadas em infraestruturas específicas da história da humanidade. Nesse sentido, a religião é um dos sistemas de símbolos fundamentais dos seres humanos, que está acima da realidade do cotidiano dando sentido a ela, ordenando a vida.  A relação religiões-secularização é tema de destaque na obra.

O sagrado e o profano. A essência das religiões, por Mirce Eliade

O filósofo Mircea Eliade não reconhece a secularização promovida pela modernidade como promotora da morte das religiões. Ao contrário, ao se debruçar sobre a história das religiões, o autor se detém sobre a experiência e a vivência religiosas, parte da trajetória dos próprios modernos humanistas. Nesse sentido encontra-se a sacralização do espaço e do tempo presente no cotidiano da humanidade, exemplificada no texto pela arquitetura urbana, domiciliar e religiosa, pelas festas religiosas, pela afirmação do lugar dos mitos que coloca o sagrado na estrutura da consciência do ser humano.

Religiões em movimento. O censo de 2010, por Faustino Teixeira e Renata Menezes (orgs.)

A complexidade do quadro das religiões no Brasil é apresentada pela dupla de pesquisadores Faustino Teixeira e Renata Menezes, por meio da análise dos números do último censo do IBGE, e de abordagens que envolvem questões socioculturais e políticas. Em 19 capítulos, o livro traz a contribuição de outros 20 cientistas da religião que desenvolvem temas como a diversidade do Brasil religioso, o crescimento dos ‘sem religião, o expansionismo evangélico pentecostal, intolerância religiosa, religiões afro-brasileiras, espiritismo, tradições indígenas, Judaísmo, Islã e religiões orientais no Brasil, cultura religiosa errante.

A mesa, o livro e os espíritos. Gênese, evolução e atualidade do movimento social espírita entre França e Brasil, por Marion Aubrée e François Laplantine

Versão em português de um estudo antropológico simultâneo na França e no Brasil, com análises que lançam mão da história e da sociologia. O texto traz as origens do kardecismo na França, da chegada ao Brasil, a difusão do movimento e a releitura pela qual passou no contexto cultural de uma hegemonia católica, denominada pelos autores como “reencantamento”. O estudo aborda questões que marcam o Espiritismo como terceiro grupo religioso do Brasil (depois do Cristianismo Católico e do Evangélico), como a expansão regional das práticas religiosas e as terapias medicinais.

Mitologia dos Orixás, por Reginaldo Prandi

Produção do sociólogo Reginaldo Prandi, a obra é considerada a mais completa coleção de mitos das religiões dos orixás em todo o mundo. Conhecer as narrativas que envolvem os orixás é aprender os sentidos profundos da existência humana e apreciar um patrimônio cultural advindo dos povos iorubas e nagôs. O livro traz 301 narrativas mitológicas que contam como são, o que fazem e como se manifestam os deuses orixás que nascem na África, foram transplantados para a América Latina, sobreviveram à dureza da escravidão e desenvolveram-se intensamente em terras brasileiras e cubanas.

Islã: Religião e Civilização – uma abordagem antropológica, por Paulo G. Hilu da Rocha Pinto

O livro do antropólogo Paulo Hilu apresenta um importante panorama sobre o Islã e suas vertentes. As práticas, os discursos e as particularidades dos diferentes grupos humanos que se identificam como muçulmanos são estudadas na obra. O livro apresenta desde dados estatísticos à compreensão desta religião como fenômeno social, denominado “Islã plural”. Importante abordagem do texto refere-se às comunidades islâmicas no Brasil, com sua diversidade árabe, africana e brasileira, confrontadas com os desafios da contemporaneidade e do crescimento de fiéis.

Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, por Ricardo Mariano

Considerado um clássico dos estudos de religião no Brasil, o livro do sociólogo Ricardo Mariano reconhece a trajetória dos evangélicos e nela o crescimento da vertente que ele denomina “neopentecostal”, segundo grupo religioso em número de fiéis no País. O livro analisa a trajetória neopentecostal que promoveu transformações teológicas, estéticas e comportamentais entre evangélicos de todas as vertentes e católico-romanos, refletidas na ocupação do espaço público com o extenso número de templos, com presença nas mídias, no mercado e na política institucional.

Igreja, Carisma e Poder, por Leonardo Boff

Reedição de uma obra clássica dos anos 1980, que analisa crítica e afirmativamente o

catolicismo, principal expressão religiosa do Brasil, sob o olhar de um dos mais renomados teólogos brasileiros, Leonardo Boff. Os ensaios do livro original são mantidos na íntegra, com trechos como “A Igreja Romano-Católica, em termos institucionais, é um fóssil medieval, autoritário, patriarcal, não mais adequado às conquistas modernas dos direitos das pessoas e do espírito democrático e da cidadania”. A reedição traz um apêndice pelo qual o teólogo detalha as consequências dramáticas que a obra lhe trouxe, com o processo doutrinário de silenciamento.

 

Por Magali do Nascimento Cunha
É jornalista doutora em Ciências da Comunicação e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas.


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