A arte imita a vida?

Ou a vida imita a vida?

Ou a arte imita a vida, que imita a literatura, que imita a ficção, que imita a vida de novo?

Afinal, a história é cíclica e os alvoroços que andam explodindo na mídia só fazem comprovar que o público ainda vai ter que aguentar muitos filmes reprisados.

Foi o caso do escândalo que estourou em novembro de 2017 e que fez com que a Academia Sueca “decidisse” não outorgar o Prêmio Nobel de Literatura de 2018 (e como poderiam, uma vez que não se pode formar um júri com um desfalque de 7 membros, muito menos julgar um prêmio deste tamanho em plena maré de descrédito).

E no meio de tudo isso, um extraordinário fluxo literário desponta entre ondas agitadas e previsíveis: a autoficção, ou ainda, o encontro entre ficção e realidade.

O matemático e escritor mineiro Jacques Fux não tem bola de cristal, mas conseguiu antever alguns dos acontecimentos recentes. Grande estudioso do Prêmio Nobel e expoente da autoficção, ele anteviu a tragédia e, em um movimento de ciranda, ironia e ambição, lançou seu Nobel, o encerramento da saga iniciada por ele em Antiterapias.

1) Você começou sua jornada com o prêmio Nobel muito antes das acusações que vieram no fim de 2017 chegarem, e muito antes ainda do mundo das celebridades ser chacoalhado com os movimentos feministas que vieram em resposta à enorme quantidade de assédios que ficaram acobertadas por tanto tempo. O mundo das premiações e da fama, seja Hollywood com o Oscar, seja a literatura com o Nobel, parece ser o de tragédias anunciadas (inclusive, anunciadas por você). Como você acredita que o encontro entre ficção e realidade pode nos ajudar a pensar questões atuais? Existe um fator preventivo próprio da auto ficção?

Jacques: Pois é, agora mais do que escritor, sou vidente. Será que psicografo ou antevejo o futuro?

Na verdade, já leio e faço pesquisas sobre o Prêmio Nobel há anos. Sempre gostei dos discursos dos laureados – são obras literárias de altíssimo nível – e sempre achei curioso o que acontece por debaixo dos panos, escondido. O livro conjectura que o que fica recalcado em todos nós é o que nos afirma e atesta.

Nesse momento, as atenções estão voltadas para o indivíduo, um fenômeno que poderíamos tentar classificar como autoficção. Isso não surgiu do nada, foi um processo lento que tem um começo em Barthes, com a “Morte do autor”, depois chega aos estudos de Lejeune, com a “autobiografia”, e finalmente eclode com Serge Doubrovsky, criador desse neologismo. No Nobel, além de falar de ficção e de literatura, descortino os atos infames e sigilosos de muitos escritores. Acho que o momento contemporâneo é esse: o lugar da fala é justamente uma evolução dessa autoficção. E, sim, isso acaba nos ajudando a pensar nos problemas atuais.

No caso do Nobel, encontramos (e eu já havia prenunciado) esses jogos comezinhos, políticos e toda estrutura misógina e do assédio – que nada mais é que um reflexo de toda a sociedade.

E que bom que isso tudo está vindo à tona! A literatura, de alguma forma, está ajudando a apontar os problemas da sociedade (e quem sabe as soluções?).

2) Na última sexta-feira, dia 4 de maio, a Academia anunciou que não dará o prêmio de 2018 devido à “perda de confiança pública” na casa e à redução de membros, e que anunciará dois vencedores em 2019. Essa foi uma decisão que causou certa polêmica e, mesmo entre os membros da Academia, não foi unânime. Reabrimos assim a discussão sobre as consequências que acabam por recair sobre o público e sobre o artista e, mais ainda, sobre o quanto sofrem a arte e a tradição frente a escândalos como este. Dado o momento em que vivemos, qual, na sua opinião, seria a postura e o papel da literatura frente à situação? O que representa a figura dos prêmios neste cenário?

Jacques: Prêmio Nobel de Literatura, sem o Fux, é claramente golpe! Com certeza a Academia ficou com medo da minha láurea.

Brincadeira.

Em alguns casos e livros, a literatura tem assumido uma posição importante. Se pensarmos, por exemplo, no livro do B. Kucinsky “K”, um processo foi aberto em virtude de um livro de ficção. O autor relata – na voz de seu pai – o “desaparecimento” de sua irmã, então professora da USP, pela ditadura militar. Na época, essa professora acabou sendo demitida “por abandono de emprego” mas, após a publicação do livro – e ao revelar toda a sujeira por trás do que realmente se passou -, a USP em um ato inédito, resolveu devolver o cargo para a professora, já que concluíram que ela não havia abandonado o emprego, mas tinha sido morta pelos militares. Aqui vemos talvez o poder da literatura.

Acho que o meu Nobel segue, de alguma forma, por esse caminho. Ele faz uma dessacralização das Instituição e de seus membros, e também revela bastidores num tom ficcional e literário.

3) Seu processo em mesclar ficções e não ficções já acontece há algum tempo, mas quando e o por que se deu a ideia de que você poderia ser um personagem da sua própria história? Qual a sua relação com leituras de não ficção?

Jacques: O “Nobel” é um discurso do vencedor do Prêmio. Então, para torná-lo mais interessante, satírico, bem-humorado e verossimilhante, seria legal colocá-lo na minha “própria” voz. Assim, é o Jacques Fux que ganha o Nobel – talvez o sonho de todo escritor. Não pelo prêmio em si, mas pelo reconhecimento de seus muitos anos de trabalho, de silêncios, de busca solitária e angustiada pela palavra e pelo sentido. Gosto de misturar os dois mundos, se é que são dois mundos. Para mim, o livro que mais me marca como escritor – que mais me comove, me motiva, me gera insegurança e estupor diante de sua grandiosidade e beleza – é o Grande Sertão Veredas.


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