Diante de tantas ameaças (à democracia, ao mundo do trabalho, às minorias, etc.), devemos nos lembrar o que todas elas mantêm em comum: todas dependem de que a Terra continue existindo, de que a natureza consiga manter a vida humana. Sem essa premissa, nada continua.

Porém, o meio-ambiente é, hoje, talvez a mais delicada das urgências, pois não se tratam mais de ameaças, são ataques constantes que já vêm mostrando suas consequências. Ou, como diz o jornalista David Wallace-Wells já na primeira linha de seu célebre artigo “The Uninhabitable Earth”:

“É pior, muito pior do que você imagina.”

A franqueza da frase e o tom pungente do conteúdo despertou muita curiosidade. O texto de David na NY Magazine, onde é editor, se tornou um dos mais lidos da revista. Muitos rebateram acusando-o de “alarmismo” – inclusive a comunidade científica -, mas, um ano e meio depois, no início de 2019, ele publicou seu grande best-seller sobre o aquecimento global com o mesmo título: “A terra inabitável”, traduzido aqui no Brasil pela Companhia das Letras.

David Wallace-Wells assinado exemplares de The Uninhabitable Earth para fãs após a conferência na Climate One. Crédito: Divulgação Climate One.

O tom pessimista descreve com detalhes um futuro muito pouco consolador. São inúmeros casos apresentados projetando os próximos 80 anos cheios de “calor letal”, “afogamentos”, “esgotamento de água doce” e “colapsos econômicos” dentre outras categorias que compõem o sumário do livro. Apesar de não ser um especialista na área, David recorreu a dezenas de estudos científicos para entender a questão e a transformou num texto compreensível para grande parte dos leitores. Ele consegue esboçar um quadro claro de desastres em cascata com a elevação de poucos graus na temperatura da Terra:

“Com 2ºC, as calotas polares começarão a se desmanchar, 400 milhões de pessoas mais sofrerão com a escassez de água, cidades importantes na faixa equatorial do planeta se tornarão inabitáveis e mesmo em latitudes mais setentrionais as ondas de calor matarão milhares de pessoas todo verão. […] Com 3ºC, a Europa meridional viverá uma seca permanente e a seca média na América Central duraria dezenove meses a mais e, no Caribe, 21 meses a mais. […] Com 4ºC, haveria 8 milhões de novos casos de dengue todo ano só na América Latina e algo como crises alimentares anuais no mundo todo.”

David Wallace-Wells é urbano por excelência e, como diz, achava que NY era uma espécie de fortaleza blindadas para os problemas climáticos.  Aos poucos descobriu a ilusão: a mais famosa metrópole do mundo também sofrerá com o desgaste ambiental. “O soberbo Ocidente passou cinco séculos indiferente ao sofrimento dos países que vivem sob o véu das enfermidades tropicais, e só nos resta imaginar como vai ser quando os mosquitos de malária e dengue baterem suas asas também pelas ruas de Copenhagen e Chicago”, comenta. Podemos pensar que o degelo das calotas polares só afetará as regiões costeiras, mas queimadas, tufões, escassez de comida e água atingirão a todos, em maior ou menor grau. Países desenvolvidos viverão colapsos já previstos que irão abalar toda a sua estrutura de vida, tornando arriscado mesmo sair para trabalhar ou respirar.

Embora pareça mesquinho, criar essa ilusão de não ser afetado não é incomum. Interpretar ou mesmo viabilizar dados consistentes sobre o clima sempre foi uma tarefa difícil, principalmente porque mexe na forma como nós temos vivido nos últimos anos. Muitos comentam que o legado de emissão de carbono – um dos principais agravantes do efeito estufa – é um legado da modernização iniciado pela revolução industrial, mas Wallace destaca que “mais da metade do carbono dissipado na atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis foi emitido apenas nas últimas décadas”. Isso quer dizer que “há pelo menos um terço a mais de carbono na atmosfera do que em qualquer outro momento nos últimos 800 mil anos – talvez até nos últimos 15 milhões de anos”.

Medidas como o Protocolo de Kyoto em 1996 e, mais recente, os acordos de Paris, em 2016, não são suficientes para segurar essa marcha de devastação. Veremos nossos filhos e netos lutarem pelo que resta do planeta sob condições muito mais ameaçadoras se não começarmos a pensar no nosso modo de vida. O termo “Antropoceno”, que vem sendo cada vez mais popularizado, explica isso: o futuro da vida humana dependendo completamente das ações que decidirmos tomar a partir de agora. No melhor dos quadros, ainda sofreremos, mas Wallace escreve não para desalentar seus leitores, mas para estimulá-los a refletir sobre o que não cessa de pedir atenção, mesmo a despeito de todos os esforços dos ambientalistas há várias décadas.

Caso nada seja feito – e este é um ponto central do livro – seremos forçados a reformular nossa ideia de “desastre natural” para “desastres não mais naturais”. Será cotidiano o enfrentamento de uma atmosfera hostil com incêndios de grande escalar devastando florestas e nublando cidades inteiras, mesmo a quilômetros de distância. Casas com ar condicionado ligados 24h por dia sob tarifas altíssimas de energia elétrica e reduções significativas de água potável disponível serão a ordem do dia. O efeito cascata é crescente de forma que, à medida que avança, a intensidade das cataratas de devastação se tornam incontroláveis e transformam a recuperação da vida humana num horizonte ainda mais incerto, embora ainda haja salvação.

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