Nossa leitura de fevereiro foi o livro Orientalismo, de Edward Said, indicado pela antropóloga Lilia Schwarcz. Considerado como marco  fundador dos estudos coloniais, nesta obra o intelectual palestino joga luz no debate sobre o oriente como criação do ocidente,uma estratégia para dominar e justificar a dominação da perspectiva ocidental da história.

 

Depois deste mergulho inicial,  o interesse em outras narrativas sobre o assunto pode crescer. Desta forma, indicamos a obra de  Nadine Labaki, a diretora libanesa que recentemente conquistou olhares em todo o mundo ao ser a primeira mulher árabe indicada ao Oscar – em 2019 – com Cafarnaum

 

Neste último filme – que levou o Prêmio do Júri em Cannes – a cineasta apresenta de forma sensível a história de Zain (Zain Al Rafeea), uma criança de 12 anos vítima da extrema pobreza em Beirute que decidiu processar os pais pela falta de amor e maus tratos. Logo nos primeiros minutos, somos engolidos pela vertigem do cenário de guerra onde o pequeno se desenvolve num misto de malandragem e inocência. 

 

A  obra de Nadine não foi sempre assim. Até chegar ao cinema de protesto, a diretora produziu outras narrativas mais sensíveis, onde buscou capturar a vida da mulher comum no Líbano. Não à toa, em meio ao caos de Cafarnaum, aparecem pitadas doces de Caramelo, seu primeiro filme, lançado em 2007. 

 

Neste primeiro longa, a diretora conta a vida de cinco mulheres num salão de beleza em Beirute. Mas elas poderiam estar em qualquer lugar do mundo, uma vez que os estereótipos que associados  à mulher árabe nem chegaram perto das personagens. Divididas entre o peso da tradição e o anseio por liberdade, os dramas de cada uma são os mesmos que de outras jovens mulheres do mundo afora. 

 

É justamente por rejeitar o estereótipo da mulher árabe em sua obra que Nadine se destaca ainda mais quando atravessa a fronteira entre oriente e ocidente.

 

As mulheres de Nadine são fortes, donas do próprio nariz, tomam decisões e se impõe numa sociedade patriarcal. Não escorregam, em nenhum momento, no personagem clichê da bailarina de dança do ventre ou na suposta opressão sob o hijab. 

 

Com a obra marcada por personagens mulheres, ela diz que esta não é uma forma de se impor num mercado machista, “estamos fazendo isso do zero. Nós não estamos entrando no mundo de um homem. É uma página limpa. De fato, há mais mulheres do que homens trabalhando no cinema no Líbano”. 

 

Se no começo era conhecida como uma diretora que levava à telona questões cotidianas da mulher comum, Labaki garante que essa virada para o cinema de protesto é definitiva. Hoje não vê mais razão para filmar se o foco não for a realidade de seu país ou os dramas sociais de seu tempo. “Para mim, fazer filmes e ativismo são a mesma coisa. Eu realmente acredito que o cinema pode afetar as mudanças sociais”. 

 

Seja com mulheres independentes ou crianças munidas de coragem e inocência para escapar de uma guerra, os personagens de Labaki derrubam todos os clichês que durante décadas o cinema comercial norte-americano nos vendeu. A obra da diretora libanesa vai ao encontro da nossa leitura do mês de janeiro e derruba alguns estereótipos das lentes ocidentais sobre o mundo árabe. 

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