Na plataforma de streaming mais acessada do mundo, o Youtube, muitas vezes os comentários dos usuários nos vídeos podem não ser tão interessantes quanto os próprios vídeos. “Sessões de comentários se tornaram espaços para conversas dinâmicas e trocas”, comenta o editor da comunidade do jornal NY Times Etim Bassey, mas ressalva que “elas podem também se tornar irrelevantes ou cheias de spam e acidez”. Essa condição ambígua que Etim comenta é responsável pelo desgaste emocional de youtubers e demais usuários que, obrigados a repetir o mantra das redes sociais, dizem para si mesmos todos os dias: “Faça o que quiser, só não leia os comentários”.

Um cenário assim seria completamente desanimador se não fosse os casos em que se salva. Há uma gama de vídeos em que os “Top comments”, aqueles que aparecem primeiro, não são os mais controversos e instigados pelo ódio. Há, por vezes, interações de usuários que realmente desejam dar suas opiniões e contribuir para a troca de experiências.   A palestra da jurista Michelle Alexander no TEDx Columbus é um desses casos. Com mais de 200 mil visualizações, a maioria dos usuários se mostra a par do que ela está dizendo quando expõe a questão racial velada nos EUA. Numa época em que, aparentemente, se viveria o pós-racial, já que Barack Obama, negro e de origem muçulmana, havia sido eleito presidente de uma das nações mais poderosas, o discurso de Michelle poderia ser disruptivo, embora mostre o contrário:

Gia Williams: Ela é minha heroína

Dijonna Stricklen: Eu amo a atitude e a preocupação dela

Há outros comentários em que o tema do encarceramento massivo e o futuro da questão racial nos EUA parece ter tocado aos usuários de uma forma mais profunda. Eles mostram, sobretudo, a empatia que a palestra de Alexander faz germinar em quem a ouve. Uma reação essencialmente humana que vem sendo cada vez mais apartada de nosso tempo cujo principal motor tem sido o medo. Não o de qualquer tipo, mas o medo a perfis específicos de pessoas.

Thomas Davis: Você não precisa ser negro e estar em uma prisão para ser maltratado na América. Ser negro é suficiente. Eu um homem negro que nunca foi preso por qualquer tipo de crime e vivi o inferno toda minha vida. É um inferno lá fora para um homem negro nesses tempos. Eu não posso nem imaginar como deve ser para os irmãos e irmãs que foram encarcerados.

Jean Gold: Isso é doloroso e chocante. Eu não sou americana, mas meu pai é negro e o que eu ouvi trouxe lágrimas aos meus olhos. Mas o que é mais aterrorizante é o fato de que esse tipo de escravidão desumana por lucro cria uma casta global de escravos. Em diferentes formas isso acontece por todo o mundo.

Essas respostas se diferem dos relatos da maioria, como aponta a autora em seu livro “A nova segregação: racismo e encarceramento em massa”. Com mais de 600 mil exemplares vendidos nos EUA, Michelle descreve uma cegueira no que diz respeito ao vínculo entre raça e encarceramento. Uma deficiência tanto do Governo, quanto da sociedade civil que nos faz pensar: que bom que alguém se dispôs a falar sobre isso no TEDx, e que sua obra tenha chegado a tantas pessoas, como comenta Patrícia Hill Collins, curadora do mês de janeiro que indicou o livro de Alexander. 

O reconhecimento de que a questão racial ainda não chegou ao fim é um começo delicado. Isso porque a sociedade não consegue compreender o que mais a atrela ao racismo estrutural. Como descreve em seu livro, se pensarmos na metáfora da “gaoila”, criada por Iris Marion Young, fica mais fácil compreender a estrutura do problema: pensemos que  o racismo é uma das barras que mantém o pássaro na gaiola, que ele é mantido ali dentro apenas por força dessa única barra envergada. Seria impossível tê-lo preso. É preciso um número considerável de barras dispostas à maneira do racismo para que o pássaro não escape. E assim o é na sociedade: ao lado do racismo, outras traves invisíveis se erguem aprisionando o indivíduo a uma casta ou, na pior das hipóteses, em uma cela de concreto de 3×2 metros.

Muitas pessoas compreendem a existência dessa gaiola que aprisiona os afro-descendentes. Uma estrutura que os diferencia desde o momento em que nascem até quando morrem. Acreditam que a questão racial ainda não foi abolida, embora não hajam mais bebedouros para “pessoas de cor” ou ônibus segregado. Mas elas não entendem como essa estrutura invisível por vezes determina a entrada desses afro-descentes num sistema pouco ou quase nada diferente do velho Jim Crow. Para Michelle Alexander, “a maior parte das pessoas está disposta a reconhecer a existência da gaiola, mas insiste que a porta foi deixada aberta.”

Ela mesma já esteve neste ponto cego da questão. Na palestra, Alexander conta como se deparou com a questão a primeira vez: ao ir pegar o ônibus uma manhã, viu um cartaz escrito “A Guerra às Drogas é o Novo Jim Crow”. A comparação lhe pareceu absurda, mas, assim que ela pegou o ônibus para o seu novo emprego como Diretora de Projeto Racial na ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis), ela percebeu sua própria contradição. “O ativista que colocou aquele cartaz no poste não era doido, nem os advogados e ativistas ao redor dos EUA que estavam começando a ligar os pontos entre encarceramento massivo e antigas formas de controle social e racial”, comenta.

White League e Ku Klux Klan unidos contra a reestruturação do sul nos EUA. Desenho publicado na revista Harper em 1874.

Numa época inundada por discursos nem sempre guiados pela verdade, a realidade parece afogar em opiniões, medo e ódio. Entrar no ônibus e ir para o trabalho seguindo com nossas vidas parece a melhor coisa, ou pelo menos a menos dolorosa, embora a ideia de omissão e responsabilidade sempre nos alcance em certo ponto do dia. Mesmo com mais livros ou produções audiovisuais que mostrem a continuidade da luta racial, a crítica embasada que tenta juntar os pontos vem sendo cada vez mais repudiada. Michelle Alexander e o seu “A nova segregação: racismo e encarceramento em massa” são representantes de uma resistência secular que não admite o “pós” sendo adicionado à sua pauta, pois acreditam que nem sempre as mudanças históricas vêm para adicionar e dignificar, elas também podem vir para silenciar e ocultar.

Leia um trecho do livro “A nova segregação”:

“O relógio do progresso racial nos Estados Unidos foi atrasado, embora quase ninguém pereça notar. Todos os olhares estão fixados em pessoas como Barack Obama e Oprah Winfrey, que desafiaram as probabilidades e alcançaram poder, fama e fortuna. Para aqueles deixados para trás, especialmente aqueles no interior dos muros das prisões, a celebração do triunfo racial nos Estados Unidos deve parecer um pouco prematura. Mais homens negros estão aprisionados hoje do que em qualquer outro momento da história da nação. Mais jovens estão privados de direitos atualmente do que em 1870, o ano em que a Décima Quinta emenda foi ratificada, proibindo leis que neguem explicitamente o direito a voto com base na raça. Os jovens negros de hoje podem estar tão suscetíveis de sofrer discriminação no emprego, na habitação, nos benefícios públicos e no serviço do júri quanto os homens negros estavam na era do Jim Crow – discriminação que é perfeitamente legal, porque está baseada em registros criminais. Esse é o novo normal, o novo equilíbrio racial.”  

Michelle Alexander

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