Crédito da imagem: Pixabay

A cientista Suzana Herculano-Houzel explica as teses de A Vantagem Humana, no qual desfaz mitos sobre a evolução humana.

Em 2003, quando era professora-adjunta na Universidade Federal do Rio de Janeiro, especializada em divulgação científica, a bióloga e então pesquisadora Suzana Herculano-Houzel passou a se interessar mais amplamente pela diversidade e evolução do cérebro. Tinha, principalmente, o interesse de entender como esse complexo e fundamental órgão se comparava entre os humanos, mas também entre esses e outras espécies de mamíferos, por exemplo.

A inquietação crescia à medida que percebia que, apesar de importantes e vastas pesquisas em torno de genes, tipos de células e áreas funcionais, não se sabia ainda do que eram feitos os cérebros. Ou seja, quantos neurônios e células gliais realmente existiam em cada estrutura cerebral – dizia-se entre os cientistas que eram 100 bilhões de neurônios, embora a origem de tal número fosse desconhecida –, mas, essencialmente, por que tantos colegas afirmaram e endossaram ao longo de séculos o conceito de que o cérebro humano não se comparava ao de outras espécies simplesmente porque seríamos especiais, alguém fora da curva da evolução.

Como, questionava ela, nos tornamos o que somos? Como nosso cérebro aumentou tanto de tamanho em 1,5 milhão de anos, enquanto outros grandes primatas, como o gorila, mantêm há muito mais tempo um cérebro com um terço do tamanho do nosso, apesar de seu corpo ser o dobro ou o triplo do humano?

Em resumo, tudo isso levou Houzel a colocar em prática um longo estudo, o qual a transformou em neuroanatomista e neurocientista, e, com o apoio do cientista Robert Lent, que era chefe do Departamento de Anatomia da UFRJ, desenvolveu um método inovador que permitiu contar com precisão o número de neurônios ao transformar o cérebro humano em sopa. Sim, dissolvê-lo até sobrar apenas a membrana nuclear em cada célula, livre para a contagem. A conclusão do estudo levou a neurocientista a desmentir diversos mitos e a revelar que o cérebro humano tinha, na verdade, 86 bilhões de neurônios, sendo 16 bilhões destes no córtex – área responsável pelas atividades psíquicas, verbalização e racionalização –, resultando, consequentemente, na explicação de por que temos a maior capacidade biológica frente a outras espécies, já que todas contam com menos neurônios nessa região.

Portanto, não somos biologicamente especiais, e nem um ponto fora da curva. “A gente é apenas mais um primata, que por uma série de circunstâncias, como graças à modificação da dieta [quando os ancestrais primatas aprendem a cozinhar o alimento, conseguindo maior energia calórica por dia], consegue ter o maior número de neurônios no córtex e, portanto, a maior capacidade biológica, adquirir e transmitir conhecimento cultural e tecnológico. É isso que distancia a gente tão enormemente de todos os outros animais.”

Suzana Herculano-Houzel é autora de A vantagem humana (Companhia das Letras), no qual narra, em 300 páginas, de forma extremamente acessível e, por vezes até cômica, o processo que transcorreu ao longo dos últimos anos. Detalha as etapas do estudo mencionado acima. E põe fim tanto a mitos quanto ao estereótipo do cientista como um ser egocêntrico, alheio a quem não é da mesma área. “Isso faz parte da minha campanha de valorização da ciência e para lembrar as pessoas de que cientista é gente. Acontecem coisas na vida da gente que são iguais como na de qualquer outra pessoa.”

Suzana Herculano-Houzel (Foto: Wikimedia)

No livro você se prontifica a acabar com o mito de que usamos apenas 10% das funções do cérebro. De onde surgiu isso, faz ideia? 

A gente não sabe, mas uma das possibilidades era justamente o que me fez começar toda essa linha de investigação, que era esse outro mito de que o cérebro humano tinha 100 bilhões de neurônios. E cadê os números? De onde vieram? Quem contou? Quem mostrou isso e como? E daí você descobre que não existe. No caso dos 10%, a gente sabe que o cérebro é utilizado por inteiro o tempo todo. O que muda apenas é como a gente o usa, que partes você está usando um pouco mais ou um pouco menos a cada momento. E qual é a experiência que você tem, quanto treino você dá para cada uma dessas redes cerebrais? Mas, de qualquer maneira, com o que a ciência tem disponível hoje para examinar o cérebro funcionando, tudo atesta que a gente o usa por inteiro, o tempo todo, apenas de maneiras diferentes.

De acordo com o que você narra em A vantagem humana, podemos dizer então que as transformações genéticas que determinaram nossa transformação de Homo erectus em Homo sapiens em 1,5 milhão de anos, um curtíssimo período frente à idade da vida na Terra, foi graças a esses nossos ancestrais primatas terem aprendido a cozinhar o alimento, conseguindo assim mais energia, resultando na manutenção de mais neurônios ativos? 

Em capacidade cognitiva, é isso que o registro fóssil conta. Há cerca de 1,5 milhão de anos, você encontra esqueletos de seres que tinham já uma forma parecida com a nossa, mas possuíam um cérebro muito menor, com um terço do tamanho do nosso. Quer dizer, tinham essencialmente como adultos o tamanho de um cérebro de uma criança recém-nascida hoje. Eles já eram bípedes, tinham a cabeça ereta em cima da medula espinhal, mãos como as nossas, capazes de manipular objetos, e aparentemente já faziam uso dessa capacidade de fabricar suas próprias ferramentas. Sabia-se disso sobre eles, mas não havia nenhuma resposta razoável sobre o que mudou dentro desse tempo que, de repente, acontece esse crescimento tão rápido do cérebro, do crânio. E é aí que entra o cozimento do alimento. Então você junta uma série de circunstâncias, como ser bípede, saber manipular objetos e já ter capacidade biológica cognitiva bastante razoável, pois mesmo com um terço dos neurônios que temos como seres humanos, você fica no nível praticamente de um chimpanzé, que é um ser bastante capaz e com DNA semelhante ao nosso. Com essa combinação de tamanho do corpo e do cérebro que os antepassados já tinham, eles deviam estar muito perto do limite metabólico, do limite energético.

Éramos Homo erectus e tínhamos um terço do tamanho do cérebro que temos hoje. E a partir do momento em que, graças ao consumo de alimentos cozidos e, por isso, mais calóricos, conseguimos equilibrar a energia que gastamos e a que precisamos para manter nosso funcionamento do corpo e cérebro, novos seres que nasceram nos milhares de anos seguintes já viriam com uma maior quantidade de neurônios ou essas células podem se multiplicar ao longo da existência? 

Não parece ser essa segunda alternativa. Existe uma variação bastante grande no número de neurônios que a gente tem no começo da vida e mudanças que acontecem depois. Julgando o que a gente sabe a partir de análises em ratos e camundongos, você não continua ganhando neurônios ao longo da vida individual. Agora que estamos estudando o grau de variabilidade em humanos, mas a gente sabe é que existe naturalmente, espontaneamente, uma variação muito grande em número de neurônios entre cérebros diferentes, entre indivíduos. Também é sabido que no começo da vida, em mamíferos, você supostamente tem uma produção de número excessivo de neurônios. O cérebro produz muito mais do que consegue de fato manter na idade adulta. Essa é uma possibilidade, de que com a mudança tão grande na quantidade de energia [calórica] passou-se a trabalhar com essa disponibilidade naturalmente alta de número de neurônios. Mas a gente não tem a menor ideia se é isso que de fato acontece. Porque a outra possibilidade é que cada indivíduo tenha um ponto diferente nessa curva de excesso e depois queda e eliminação, o que estabiliza a pessoa em certa quantidade de neurônios. Ou seja, isso acontece igual para todo mundo, mas haveria variação natural, espontânea, sobre quantos neurônios você tem no cérebro, antes e depois dessa curva.

Mas existe uma idade em que essa eliminação e essa estabilização do número de neurônios acontecem? 

É supostamente na primeira idade, até os 3 ou 4 anos, mas, de novo, a maior parte do que a gente acha que sabe sobre o cérebro humano depois do nascimento, na verdade, é inferência a partir do que a gente sabe que acontece com ratos e camundongos. Há muitos buracos ainda nessa história. Então existe, sim, a possibilidade de que quando você tem mais calorias disponíveis, na primeira infância, você consegue sustentar um número maior de neurônios. A gente tem um estudo que está para sair agora, em que aparentemente isso acontece em ursos. O urso vive uma demanda metabólica muito grande, porque o corpo dele é muito grande. E por todas as regras que valem, todas as proporções que valem para outros animais, você esperaria que o urso tivesse um número de neurônios no córtex maior que um cachorro. De fato, o urso tem um cérebro grande, mas o número de neurônios dele é proporcional ao que se encontra no cérebro de um gato. A nossa suspeita, por enquanto, é que isso se deva justamente à restrição energética. Talvez isso sustente essa possibilidade de que na evolução humana você tem esse aumento tão rápido no tamanho do cérebro por causa da maior disponibilidade de calorias, justamente nessa fase do começo da vida, quando o cérebro tem a possibilidade de gerar mais neurônios, mas só consegue sustentar um certo número deles.

O foco em A vantagem humana era atestar que nosso cérebro não era especial, embora de fato tenhamos mais habilidades cognitivas. E isso você não só provou como aprofundou outras descobertas. E hoje, de que forma prosseguem suas pesquisas? O que te inquieta neste momento? 

No momento, tenho estudado de que forma cérebros diferentes são feitos, e isso me levou a vertentes diferentes agora, que são entender o que isso tem a ver com longevidade, que está relacionada com quanto de energia o cérebro custa e como se mantém, que implicações isso tem, por exemplo, com quanto a gente dorme, como você junta isso tudo na história da evolução dos mamíferos… É bacana ver as perguntas mudando. Não sei dizer hoje o que estarei estudando daqui a 20 anos. Mas, daqui a 20 anos, quando olhar para trás, certamente conseguirei reconhecer um caminho. Essa é a diferença entre evolução e as teorias evolutivas.

* A versão completa desta entrevista foi publicada na Revista da Cultura.  Leia a íntegra em https://goo.gl/KuCSJj.

A Vantagem Humana Como nosso Cérebro se tornou superpoderoso Suzana Herculano-Houzel

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