Foto: Ryan Russell

Thomas James Gabel é roqueiro e vive no ambiente hipermasculino do punk, junto de sua banda Against Me!, de certo sucesso underground nos Estados Unidos. Depois de muita hesitação, ele se aceita portador de disforia de gênero e assume publicamente a identidade feminina de Laura Jane Grace, sem, contudo, abandonar a cena punk. Parece trama de filme hollywoodiano, mas é a chamada vida real, narrada em primeira pessoa no livro Tranny – Confissões da Anarquista Mais Infame do Punk Rock. Desbragada, a narrativa acompanha com sinceridade o sofrimento de Thomas/Laura, desde os tempos de usar escondido os vestidos da mãe e temer que namoradas, colegas de banda e executivos da indústria musical descobrissem seu segredo, até gravar com o Against Me! o álbum “Transgender Dysforia Blues” (2014) e finalmente assumir a identidade oculta, aos 32 anos.

Tranny inclui trechos do diário de Thomas, o único lugar onde falava do assunto, e flagra todo o desamparo e toda a turbulência por trás daquilo que os fanáticos do obscurantismo batizaram grotescamente de “ideologia de gênero”. O processo nunca foi suave para Laura/Thomas, e isso fica evidente no modo como ela jamais discorre abertamente sobre sua orientação sexual, mesmo após consumada a transição da identidade masculina para feminina. São tocantes os momentos em que uma relação amorosa (com uma mulher) desmorona diante da opção de Thomas por mudar de gênero (“sinto atração por homens, não por mulheres”, lhe diz a parceira).

À parte a dor, “Tranny” é repleto de passagens divertidas, e faz-se revelador não apenas quanto às políticas de sexualidade, mas também, em especial, no modo desassombrado como Laura descreve as politicagens da indústria fonográfica e musical, entre shows de bajulação para militares estadunidenses, batalhas judiciais e rivalidades com outras bandas punk.

“Tranny – Confissões da Anarquista Mais Infame e Vendida do Punk Rock”. De Laura Jane Grace, com Dan Ozzi. Powerline Music & Books, R$ 60 .

 

Compartilhe: