Na Edição 16 da Panaceia, os associados receberam o livro “Uberização: a nova onda do trabalho precarizado”, escrito por Tom Slee, e que nos concedeu uma entrevista exclusiva por e-mail para complementar a leitura. A indicação veio do curador Ricardo Abramovay, economista titular da USP conhecido por seus trabalho com sustentabilidade e análises criticas da economia global. Você pode conferir o que mais veio no kit da Edição 16 aqui. É uma leitura que chega num momento oportuno, quando vemos, ao mesmo tempo, a enxurrada de aplicativos disponibilizando serviços de compartilhamento, e a tramitação de reformas trabalhistas de peso.

Há um cinismo crescente em alguns países a respeito da possibilidade de bons governos e da disposição para entregar instituições que deveriam ser democraticamente controladas para o setor privado. | Tom Slee

Em “Uberização: a nova onda do trabalho precarizado”, Tom Slee traz uma análise contundente da realidade por trás de grandes empresas como a Uber e a Airbnb – que são mais comuns aqui no Brasil – e os impactos e desafios que elas vêm propondo hoje. A Panaceia já trouxe outra crítica do nosso mundo tecnológico em nossa Edição 11, com o livro “Big Tech | A ascensão dos dados e morte da política, mas a proposta agora é outra: Slee se dedica em analisar como as ideias de “Economia do Compartilhamento”, que pensavam a internet como espaço de troca e fuga ao consumismo, se transformaram num esquema bilionário, com muito pouco ou nada a ver com seus ideais iniciais e que tem mudado o mundo trabalho, enfraquecendo os direitos trabalhistas.

Fique com a entrevista.

Poderia nos contar melhor sobre sua carreira e seus livros? No seu twitter está escrito que você “trabalha pra SAP (empresa de TI), mas seus tweets não representam seu empregador”. Isso significa que você trabalha com tecnologia, mas também é um crítico dela?

T. S.: Eu sinto que há duas respostas para essa pergunta: uma que nós gostaríamos que fosse verdade (que é intencional e racional) e outra que é de fato verdadeira, que é cheia de acasos. Eu cresci numa família que pertencia ao Partido Trabalhador no Reino Unido, num tempo em que estudar ciências era apenas “a coisa mais sensata que garotos faziam”. Então eu fiz também. E no final eu entrei no mundo do software, e sim, é onde eu ainda estou. Como toda indústria, ela tem seu lado bom e seu lado ruim, mas eu sabia e esperava isso: o que me deixa particularmente com raiva é quando vejo pessoas e companhias expondo metas “progressivas” enquanto fazem o oposto. Aliás, foi isso que fez com que eu me dedicasse tanto tempo na Economia do Compartilhamento. A segunda razão é que, em 2013, eu passei um tempo escrevendo um script para coletar dados do site da Airbnb como hobby. Eu estava realmente interessado nas recomendações só que, quando postei no meu blog – que muito poucas pessoas leem – eu recebi ligações de senadores de Nova Iorque pedindo mais detalhes. E como outras pessoas, se estavam interessados, eu tomei isso como um incentivo para fazer e mais – e fiz.

Como muitas outras pessoas, a Economia do Compartilhamento era um sonho que você também acreditava?

T. S.: Eu acreditava. Com certeza, em 1990, no começo da internet, eu acreditava fortemente na possibilidade de mudanças progressivas. Acho que o momento de desilusão foi quando li um livro em 2007 chamado “A cauda longa” em que se tentava explicar como a Internet democratizaria tudo, embora estivesse ficando cada vez mais claro o oposto. Ele era influente, mas, para minha mente, aquele livro foi terrível. E então a Economia do Compartilhamento parecia ser uma promessa, até porque eu não tenho nenhum carinho pela indústria do hotel do taxi! – mas eu já estava pronto para acreditar que isso não ia ocorrer como o esperado. E parece que é o que vem acontecendo.

Como os gigantes do Vale do Silício estão se tornando uma ameaça aos trabalhadores e os direitos deles?

T. S.: Uma das táticas mais repetidas das companhias do Vale do Silício é reescrever leis e regras para se beneficiarem. O argumento usual é que eles querem oferecer algo completamente novo e as regras existentes não se aplicam, apesar de que estão prontos para “negociar” novas regras. Na verdade, não há necessidade para novas regras exceto quando a companhia não gosta das que já existem. Anfitriões da Airbnb estão oferecendo acomodações e deveriam ser taxados, e a Uber está oferecendo um serviço de táxi que também deveria ser tratado enquanto tal, em particular no que diz respeito à relação de responsabilidade e de emprego. Agora nós vemos, em Toronto, perto de onde eu vivo, a Google desenvolvendo o projeto “Sidewalk Toronto” – uma inciativa para criar uma “cidade inteligente” – e eles querem novas regras para se aplicar a forma com que eles trabalham, trespassando todas as leis já existentes. Isso tem sido muito antidemocrático. Felizmente, alguns habitantes da cidade começaram uma campanha chamada “Block Sidewalk” que nós esperamos fazer barrar o projeto.

Qual você acha que poderia ser o impacto desse tipo de economia num país emergente como o Brasil?

T. S.: O que nós temos visto é que o impacto da Airbnb e da Uber, em particular, tem um elemento imperialista junto. As companhias não veem motivos para compreender as regras ou circunstâncias locais, e estão prontas para minar as leis de outros países (a exemplo da Uber pagando multas de motoristas no México), que é basicamente um movimento imperialista. Eu sei que, como outros países, serviços como taxi e acomodações tem seus problemas e que algumas pessoas acham que aumentam a mobilidade e as oportunidades para os pobres, mas espero que com o tempo os benefícios, como vemos por aqui, venham para o melhor.

Por que há uma resistência para se criticar os serviços da Airbnb e da Uber?

T. S.: Eu suspeito que muitas pessoas querem acreditar que esses serviços realmente trazem algo de novo além de um bom aplicativo ou um serviço de smartphone. Tenho ouvido que as pessoas mais jovens vêm dizendo que “esse é o jeito como nós fazemos hoje” e penso que parte do apelo tem a ver com as gerações mais novas poderem “ter” de um jeito diferente da geração anterior, de seus pais. Porém, há um cinismo crescente em alguns países a respeito da possibilidade de bons governos e da disposição para entregar instituições que deveriam ser democraticamente controladas para o setor privado. Eu acredito que as cidades foram obrigadas a entregar o trânsito para a Uber, por exemplo. Meu maior medo é que essa tendência continue, e que o transporte “público” seja substituído por Uber e que qualquer chance de controle democrático sobre esses serviços desapareça.

Você pode falar um pouco sobre os problemas dessas duas companhias no terreno em que elas atuam? Quer dizer, no turismo e no transporte.

T. S.: Com a Airbnb, o problema parece ser principalmente em destinos turísticos populares, tanto nas grandes cidades como nas cidades menores. Depois de muito debate, agora parece ser geralmente aceito que a Airbnb, especialmente quando há muitas listagens, pode ter um efeito ruim nos bairros locais, na disponibilidade de casas e acessibilidade, e não fornece um serviço que é livre de discriminação e disponível para todas as pessoas (incluindo pessoas com deficiência). Quando falo com algumas pessoas do governo local da Europa, sua maior preocupação é que elas não querem “acabar como Veneza” – uma cidade que os turistas amam, mas onde ninguém pode realmente viver. E em algumas cidades – Barcelona, ​​Lisboa, Reykjavik e outras – é exatamente isso que está acontecendo. Eu acho que Barcelona tem sido muito avançada em ver o problema e tentar impedir o dano que a Airbnb pode causar.

Já com a Uber os problemas estão principalmente nas grandes cidades, onde é mais usado. O aplicativo é ótimo, mas a empresa só conseguiu realmente porque está subsidiando os passeios. Mesmo que tenha conseguido evitar muitas regras dispendiosas que os serviços de táxi tiveram que seguir, elas ainda estão perdendo US $ 1 bilhão a cada trimestre, principalmente em subsídios para manter os motoristas na plataforma. Meu grande receio é que a Uber tenha de lucrar mais cedo ou mais tarde, e o fará encontrando maneiras de explorar seus drivers ainda mais do que agora, ou que substituirá o transporte público tornando-se “essencial” e use sua alavancagem para exigir subsídios das cidades. Mas vamos ver.

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