Em nosso kit de março, na 14ª edição da Panaceia, a curadora Tulipa Ruiz indicou o livro “Jinga de Angola: a rainha guerreira da África” (Todavia). Sua autora, a historiadora Linda M. Heywood, percorreu diversas fontes para reconstruir o legado de Jinga, uma forte, inteligente e política mulher africana cuja importância foi distorcida e ocultada pela história. Com tradução de Pedro Maia Soares e posfácio de Luiz Felipe de Alencastro, o livro traz também um panorama da África do século XVII e do reino de Jinga, Ndongo, situado ao norte da atual Angola.

Para contar um pouco sobre a figura dessa rainha que acompanha o trabalho de Heywood, nós traduzimos uma conversa da historiadora com Marco Werman, jornalista do Public Radio International. Aqui ela conta um pouco de quem foi Jinga e algumas curiosidades sobre ela, como na vez que a rainha foi negociar com o colonizadores portugueses e se recusou a sentar no chão, como era o costume. Contudo, a história de Jinga não se resumiu apenas ao seu século. Movimentos anticoloniais do século XX também a resgataram e a sua importância abrange todo o mundo afro-atlântico.

Sobre a autora: Linda M. Heywood é professora de história e estudos afro-americanos na Universidade de Boston. Em 2008, recebeu o prêmio Jean Herskovits destinado a trabalhos sobre a África, pelo livro “Central Africans, Atlantic Creoles, and the Foundation of the Americas, 1585-1660” em parceria com seu marido John Thorthon. Também publicou “Diáspora negra no Brasil” (Contexto), “Contested Power in Angola” (Rochester), “Central Africans and Cultural Transformations in the American Diaspora” (Cambridge).

Eis a conversa

Rainha Nzinga (também pronunciado Njinga) governou o que hoje é a nação africana de Angola. O reinado de Njinga foi a maior cidade de Angola, onde ainda está uma estátua do século XVII da rainha, no largo Kinaxixi. “Njinga parece muito alta, com a cabeça levantada olhando para longe. Ela tem braceletes nos pulsos, e também um machado de batalha. Ele era conhecida por sua proeza militar. Ninguém usava o machado de batalha como Njinga”, comenta Linda Heywood, que leciona Estudos Afro Americanos na Universidade de Boston.

Elegante, mas poderosa, haviam rumores de que a rainha Njinga havia praticado sacrifícios humanos e governado com mão de ferro. Durante seu reinado, ela frequentemente se correspondia com o Papa, pedindo a Roma que mandasse mais missionários. Você poderia nomear essa capital africana onde Rainha Njinga reagiu aos invasores portugueses e viveu para contar a história? A resposta é a capital de Angola, Luanda. O legado da rainha Njinga continua vivo em Angola hoje, de acordo com Heywood, que atualmente está escrevendo um livro sobre a rainha africana. “Quando ela nasceu, na verdade, foram apenas alguns anos depois da presença portuguesa na costa angolana da capital que foi dado o nome de Luanda, que ainda é a capital hoje”. Heywood diz que era o início quando comerciantes de escravos britânicos e franceses começaram a competir com Portugal pela costa da África. Mas rainha Njinga entrou no caminho deles.

Ao que eles iam conquistando terra perto de onde hoje é Angola, os portugueses passaram muito tempo negociando com a rainha. E a rainha Nzinga de Luanda usou todo o poder que ela poderia lançar mão para negociar tratados: “Quando Nzinga chega ela traz consigo várias pessoas, ela está vestida com seus panos tradicionais e, quando vai negociar, os portugueses querem que ela se sente no carpete no chão assim como eles fizeram com outros representantes locais. Mas ela se recusou a sentar e ordenou para que um de seus serviçais, que ficou de quatro para que a rainha pudesse negociar sentada nele”, explica Heywood. Mas a negociação falhou e Nzinga organizou uma resistência contra Portugal pelos próximos 30 anos. A rainha viveu até os 80 anos morrendo na década de 1660”. Seu legado foi revivido três séculos mais tarde, durante a luta de libertação angolana.

Heywood diz que Nzinga foi parte da estratégia do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), atual partido no governo angolano. “Quando eles começaram, precisavam de meios para mobilizar a população a se unir na resistência contra os portugueses e uma das estratégias dos intelectuais foi olhar para o legado de heróis e heroínas do passado angolano, e Nzinga estava logo ali”. Até hoje, comenta Heywood, Nzinga está lá no Largo Kinaxixi, onde recém-casados costumam posar e tirar fotos na frente de sua estátua. “Eles acreditam que indo até o monumento e tirar fotos depois de casar em uma igreja legitima a ligação e história deles com Nzinga”, diz Linda.

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