Crédito da imagem: Paul Preciado e Judith Butler | Revista Têtu, nº 138 (Nov. 2008)

“Pensar que o corpo termina onde acaba a pele é ridículo. E, não obstante, é assim que pensamos. Ao invés de falar do ‘corpo’, eu uso o termo ‘arquivo do corpo’. Eu vejo o corpo como um arquivo político e cultural, com imagens, narrativas e práticas armazenados nele. Nosso corpo é pequeno, mas o aparelho somático é gigante.” Paul Preciado

A curadora do kit do mês de junho é uma das principais vozes da teoria queer e de gênero. Judith Butler tornou-se uma figura de representação para tudo aquilo que se baseia na diferenciação e na desconstrução de hegemonias datadas. E, já que estamos falando dela, por que não levar a discussão um passo à frente? Apresentamos Paul. B Preciado.

Preciado, discípulo de Jacques Derrida, Michel Foucault, Agnes Heller e da própria Butler, nasceu e foi batizado Beatriz Preciado. Em muitos casos esta informação não seria relevante e tampouco citada. Por que então começar o perfil de Preciado com ela?

Porque Preciado pertence a uma linha filosófica cosmopolita que procura transformações na sociedade, de valor, conhecimentos e modos de produção. Ele segue a tradição nietzscheana que entende a filosofia como um modo de vida e, diante de uma sociedade proibitiva de mulheres, ser transgênero é um levante. Questionar as diferenças e hierarquias sexuais e raciais convencionadas até os dias de hoje é uma forma de trazer à luz classes rebaixadas à submissão, ou seja, todos aqueles envoltos por uma aura de transgressão sexual. Fala-se aqui não só de gays e lésbicas, mas também de trabalhadores sexuais, atrizes e atores pornográficos, entre outros.

Preciado é visto como um continuador da teoria de Judith Butler, mas talvez o correto seja dizer que seus estudos, por mais que precedidos e possibilitados pelos dela, correm em paralelo. Se o foco da pesquisa de Butler se volta ao gênero e aos limites entre corpo e gênero, num esforço de repensar o significado de convenções sociais, para Preciado é vital que se questione a naturalização do sexo e outras questões relacionadas ao corpo.

Daí a necessidade de trazer à baila a questão trans, a experimentação com hormônios, e dilacerações e mutações corporais. Para ele, não só a  desnaturalização do sexo está em jogo, mas também o discurso de afirmação de cada corpo e, ao mesmo tempo, cada corpo como discurso.

A estética queer

Mas se o trabalho de Preciado já conquistou o mundo, por que seu livros (bem como os de Judith Butler) demoraram a chegar ao Brasil? Manifesto Contrassexual, por exemplo, foi publicado em 2002 e só chegou à terras brasileiras em 2015. Muitos argumentos podem começar a explicar este fenômeno, mas talvez seja preciso falar de um elemento insólito e um tanto quanto perturbador aos mais conservadores: a defesa por uma estética queer, a estética que, por meio do grotesco e de complementos estranhos, procura se impor à heterossexual. São o excêntrico e o bizarro feitos necessários para que se possa renaturalizar as diferenças sexuais. “Dois elementos diferenciais separam a estética queer daquela da normalização hétero do antigo regime: o consentimento e a não naturalização das posições sexuais. A equivalência dos corpos e a redistribuição do poder”.

Conheça as obras de Paul Preciado que já chegaram ao Brasil:

Manifesto Contrassexual

Talvez sua obra mais conhecida até o momento, é considerada uma obra crucial sobre gênero e sexualidade nos dias de hoje. O filósofo faz cair por terra tudo o que considera estereótipos artificiais. As noções de homem e mulher, homo e heterossexual, por exemplo, se desfazem por já não terem nem mesmo uma superfície firme onde possam se manter.

Testo Junkie

Recém-lançado no Brasil, é a investigação do chamado “regime farmacopornográfico”, por meio de sua experiência com a ingestão periódica de testosterona, administrada e dosada pelo próprio, fora de um contexto médico ou de transição sexual.

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