Estamos às portas de um novo mundo? Muitos especialistas têm apontado para as consequências disruptivas da chamada indústria 4.0, da revolução digital que se insinua a quase todas as dimensões da vida humana.

Com nuances variadas, os prognósticos coincidem na avaliação de que teremos uma eliminação maciça de empregos, como jamais visto nas etapas anteriores do capitalismo. O que fazer? Como deveremos organizar nossas sociedades para viver neste contexto de radical transformação? Isso nos condenará a um mundo distópico ou será a condição necessária para a emancipação das multidões que há séculos carregam o fardo do trabalho?

O debate não é novo. Em “A Política” (século IV a.C.) Aristóteles especulava sobre tais questões: “Se cada instrumento pudesse executar por si mesmo a vontade ou a intenção do agente, se a lançadeira tecesse sozinha a tela, se o arco tirasse sozinho de uma cítara o som desejado, os arquitetos não mais precisariam de operários, nem os mestres de escravos.”

Marx, certamente, foi quem mergulhou mais a fundo nesta seara, abrindo diversas frentes de pesquisa para pensadores de distintas especialidades e variadas visões de mundo.

Desde seus manuscritos econômicos e filosóficos de 1944 ele assinalava o caráter ambivalente do trabalho, além das possibilidades libertárias que a concorrência intercapitalista oferecia na medida em que, por meio das inovações tecnológicas, iria tornando o trabalho redundante e descartável.

Desde então, há uma infinidade de autores e diversas escolas de pensamento que se engajaram nesse debate, sempre antigo, mas quase nunca envelhecido.

Abaixo, algumas (poucas) referências de textos que percorrem a questão do trabalho e que de alguma forma me parecem úteis para lidarmos com as angústias que se recolocam à nossa civilização a cada nova revolução das forças produtivas.

Metamorfoses do trabalho
André Gorz
Annablume, 247 págs.
O filósofo austro-francês André Gorz talvez tenha escrito um dos mais instigantes livros sobre ‘o trabalho’. A partir da ideia de que o trabalho, tal qual o concebemos, é uma invenção da modernidade, um produto do capital, ele percorre os sentidos que ele conteve desde a origem do capitalismo até a crise da utopia do industrialismo que nos alcança. Corajoso, ousou questionar o apego à ideologia do trabalho que ainda é forte em parte das esquerdas, sugerindo que deveríamos nos lançar em uma utopia que não tivesse mais o trabalho como elemento estruturante da sociabilidade. Saiba mais >

 

Aspectos políticos do pleno emprego
Michael Kalecki
In: MIGLIOLI, J. (Org.) Crescimento e Ciclo nas Economias Capitalistas.
Hucitec 194 págs.

Em breve ensaio de 1943, o economista polonês apontou para as artimanhas políticas e teóricas que as classes dominantes lançam mão para evitar a ascensão dos trabalhadores. Depois de demonstrar que o nível de emprego ou dos salários não afetam negativamente os lucros, o autor denuncia que por razões políticas os capitalistas agem em bloco para evitar o pleno emprego.

Como principal estratégia, empresários e rentistas condenam de forma reiterada a intervenção estatal na economia, alegando que ela quebra a confiança dos investidores, desvirtua a ética da concorrência e, no âmbito dos trabalhadores, desestrutura a ordem meritocrática. Infelizmente o texto segue muito atual.

 

O precariado: a nova classe perigosa
Guy Standing
Autêntica, 288 págs.

Em seu famoso livro, o economista identifica e conceitua uma nova classe social que teria emergido com o fim do capitalismo regulado ou da sociedade fordista. Trata-se do “precariado”, uma camada de gente de baixa qualificação, que vive de forma precária e insegura, saltando de ocupação em ocupação e que, por tudo isso, não tem no trabalho a centralidade de sua existência.

Mais do que isso, como se trata de uma classe à deriva, fragmentada e pouco aderente às instituições, imagina o autor que esta nova classe seja potencialmente perigosa, reacionária e propensa à xenofobia. O evento do Brexit em junho de 2016 parece ter dado razão aos temores de Standing. Para evitar o pior, termina o livro elencando algumas propostas, destacadamente a adoção de uma renda mínima universal. Saiba mais >

 

O sentido do trabalho
Ricardo Antunes
Boitempo Editorial, 264 págs.

O sociólogo Ricardo Antunes questiona em seu livro aquela linha de estudiosos do mundo do trabalho (Gorz entre eles) que desde os anos 1970/1980 apontavam para o fim da sociedade do trabalho.

Antunes prefere interpretar as profundas transformações que se observam no capitalismo desde então como promotoras de uma nova morfologia do trabalho, a qual reflete os fenômenos da globalização, da deslocalização da produção, da crescente flexibilização das relações de trabalho e que, em última instância, introduzem novos sentidos ao trabalho, agora associados a uma miríade de ocupações muito diferentes entre si. Saiba mais>

 

As possibilidades econômicas de nossos netos
M. Keynes

Neste ensaio, Keynes não trata exatamente do tema trabalho, mas encaminha questões importantes a respeito. Em um esforço de imaginação, tenta rascunhar o mundo do início do século XXI (este que habitamos hoje). Supõe que os economistas terão baixado a bola e já resolvido o problema econômico [a escassez] que atormenta a humanidade desde sempre. Imagina então que cada um trabalhará apenas 3 horas por dia, que o amor ao dinheiro será considerado uma morbidade e o utilitarismo dará lugar à apreciação estética da vida.

A escassez, de fato, deixou de ser problema, mas de resto os prognósticos de Keynes não se confirmaram. Refletir sobre os erros que nos afastaram do mundo imaginado por ele talvez seja um bom roteiro para pensarmos as possibilidades econômicas de nossos filhos.

 

A corrosão do caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo
Richard Sennet
Record, 2004 (1998)
208 págs.

O sociólogo e historiador nascido na Chicago dos anos 1940 trata das profundas transformações da subjetividade dos trabalhadores promovidas pela introdução do “trabalho flexível” que acompanhou a globalização neoliberal.

Escrito na forma de ensaio, com um texto muito agradável, alternando reflexões sociológicas, filosóficas e relatos concretos dos trabalhadores que se equilibram entre os riscos e as incertezas do novo capitalismo, Sennet revela o abismo de sentidos a que se lançam os trabalhadores na medida em que o capital se aventura pela saga da concorrência frenética e desregulada. Saiba mais >

 

Por Marcelo Manzano
Economista, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais de Economia do Trabalho, coordenador do programa de pós-graduação “Estado, Gobierno y Políticas Públicas” da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais

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